domingo, 27 de julho de 2008

Trans

É um tormento inexprimível. É uma busca incessante por um ser além de um é. Mas talvez seja assim mesmo que deva ser. Aliás, é (ou não é?).

Somos a eterna abertura, uma eterna incompletude do ser. Inconclusivos. O fato de não sermos algo, alguém, isso ou aquilo, te dar várias possibilidades de ser, e aquele tormento (quase) necessário torna-se gozo.

Vejamos:

Um ser-ter: “− Entre, esta é minha sala. Olha só! Não é um máximo essa minha cozinha. Ah, vem conhecer vem... querido!”

Um ser-fim: “− não sei, eu sou meio estranha mesmo. Sabe o que minha mãe disse outro dia. (− tu vieste de onde em menina?). fazer o quê? Eu sou assim mesmo.

Um ser - aparente: os já citados.

Um ser-real: “um poema apenas começado.” Ou talvez aquele cara sentado lá em cima. Viu?

O fato é que nem sempre estamos interessados no risco. Por conseguinte, na vida. Esse essencialmente - possibilidade - de - ser não nos atrai. O que se quer é o aparente, o confortável. Fazemos mais pelo parecer do que pelo ser. E o ser real torna-se clausura, só em pensamento (ou não).

Eu não quero ter a responsabilidade de espelhos quebrados, ou sonhos malogrados. Não. ... Ta vai, talvez sim. Mas o que está em questão é que o bom de ser aquele homenzinho lá em cima, sentado, em público, ao ar livre é exatamente a sua liberdade de ser. Por que é essa a condição que lhe da oportunidade de simplesmente mudar. Hoje eu posso ser aquilo lá, amanhã também, e depois? Depois eu posso ser um boneco de lata, ou um lixeiro cor de rosa... ou... Sei lá.

Acabou. Entendeu né? Então tá. Vou ouvir música agora.



sexta-feira, 27 de junho de 2008

Fugaz


− Onde está?... Como?!... Perdeu-se?!

− Ficou pra trás.

− Não, você está enganada, eu o imaginava.

− Sim eu sei.

− Então? Como pode ter se tornado passado?

− Porque tudo passa, não mais existe no próximo segundo...


Fechei a porta, cadeado, o maior que encontrei. No ônibus, relógio no pulso, Atraso. Olho pro lado, passo, passou por mim. Minha atração de adolescência. Quantos sonhos...

Na redação o frio diário. Computador, escrevo, reviso, escrevo.

Café. Sempre tomo! Aqui é realmente muito frio.

Era uma matéria sobre “relações familiares”. A sugestão foi minha. Aceita. Fruto de uma pesquisa universitária tornou-se quase um projeto de vida. Cada estatística, cada contato, cada gravação. Tudo. E cá estou, escrevendo, revisando, escrevendo.

Acabou, leio pra ela:

− nossa! Ta ma-ra-vi-lho-so!

Sorri.

Tento ler. Tem um cara dormindo ao meu lado. Muita gente em pé, uma longa fila de carros.

Missão cumprida. Ela gostou, ela escreve bem, sabe o que é um bom texto. É.

− será que foi um acidente?

Algo me desassossega. Deixa-me ver: escrevi aquilo... coloquei a fala dele... Não, está tudo certo.

Aí que demora. Tem ar demais aqui. Mas como? Com tanta gente? Mas tem!

Ele entra gélido em mim. Parece que ta sobrando espaço, e ele esta circulando livremente dentro de mim, me fazendo ter calafrios e... dor de barriga. É. Eu estou nervosa e não sei com o quê...

− Aí que demora é essa?

Mas que vazio é esse aqui dentro? Não entendo, agora mesmo estava radiante com MINHA matéria.

Mas ai está! Não é por conta da matéria, sou EU. Isso. EU!

Acabei, fiz um ótimo trabalho, mas agora cá estou, tendo que aturar a mim mesma. Sozinha. Sem mas nada a fazer. Acabou!

− finalmente esse ônibus sai do lugar!

Foi um longo tempo perseguindo esta meta. Um bom trabalho, uma boa recompensa. Todos comentando o texto. “o glamour”

A insaciabilidade desse objetivo se desfaz, desmancha. Todo aquele tempo como um meio de alcançar. Nada era o bastante, pois faltava alcançar, sempre.

Cheguei. É apenas desilusão.

Talvez seja melhor passar antes na casa dela. Acho que já está em casa. Tudo me lembra o que ela havia me dito antes. É. É melhor ir.

Meu tempo como um meio. Minha vida como um meio. E o fim desvanecido com o objetivo satisfeito. Que inútil.

Tudo isso. Tanto tempo perdido. Tantos sentimentos e vontades e repentes... adiados por um fim OCO!

Ta. Tudo bem. Que drama!

Eu ainda tenho muitas idéias, vontades, paixões...

Mas pra quê? Pra tudo se tornar pó, e se reconstituir, e ser pó de novo. É realmente inútil.

– MOTORISTA! vai descer!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Vou fazer uma louvação, louvação, louvação!

De um simples nó, à imponência.

(- Mas não se deve esquecer aquele terno escuro... – como é o mesmo o nome? Ah! Terno EXECULTIVO. Isso.)

O desenvolvimento das competências multiplica o identificável. Assim, nos reconhecemos no outro. Com símbolos nos pés, nos óculos ou até mesmo nos dedos, nos integramos socialmente e exercitamos (porque não?) o poder.

A ostentação e o domínio dos recursos simbólicos, que dão alma ao que usamos, vemos, ouvimos ou lemos, é a pré-condição para o reconhecimento de um indivíduo na sociedade e torna-se indispensável, também, nas relações políticas e econômicas.

Cidadão assemelha-se ainda mais ao status (e ainda há quem diga que estamos na era da “sociedade interativa”).

A lógica é mais ou menos essa: com instituições públicas degradadas e falidas, os indivíduos recorrem às mídias (e outros meios), e mantêm-se informados sobre muitos de seus direitos e deveres, além de, muitas vezes, garantirem reparações sociais, que, normalmente, paralisariam na eterna burocracia dos órgãos públicos. Mas o que isso tem a ver com status e cidadania? Tudo. Sob esses encadeados de circunstâncias, a idéia de democracia e participação social sofreu alterações consideráveis. Isso, por sua vez, gerou uma sociedade desinteressada por política e pela coisa pública, ou seja, cada vez mais distante da idéia de coletivo.

O lugar foi cedido a uma cidadania de comportamentos e não de ações, do ter e não do fazer, das subjetividades simbólicas e não de “subjetividades ideológicas”.

A hierarquia social, dada pelo status econômico e profissional, é encarada como natural e aceitável como uma condição justa. Não por acaso, encontramos médicos exigindo um absurdo “ato médico” (somente os médicos poderão ocupar cargos de coordenação e chefia), discrepância de salários discriminada por cargos (e sexo, não esquecer!), empregados de cabeça baixa diante de patrões. São nesses termos que encontramos uma cidadania ao avesso. Uma cidadania para poucos, para os que têm condições de ser cidadão na plenitude do seu significado.

Enquanto uns usam a gravata, o nó aperta na garganta de quem nem sabe como fazê-lo. É na prática da subserviência que o processo de “interatividade social” ganha um sentido de dominação. A interação se dá em um único sentido: vertical, de cima para baixo. Interagimos sim, mas sob o comando das ordens que vem de cima. Do ponto mais alto dessa linha vertical, dividida por um nó de uma gravata.


Perils of Love...

"Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo a porta."

Arnaldo Jabor


segunda-feira, 23 de junho de 2008

terça-feira, 13 de maio de 2008

O lamento da vitrola

Nesta segunda, o Brasil amanheceu mais triste. Olhos inchados (inclusive os meus) de quem chorou por alguém que não conheciam há um mês, que nunca trocaram, sequer, uma única palavra. Por alguém que só viram através da TV em qualquer canal desejável, protagonizando uma triste história que resultou em sua morte. O “caso Isabella” deixou os brasileiros perplexos por tamanha crueldade. Uma onda de indignação precipitava dos lares de cada um que assistia, todos os dias, a cobertura minuciosa que os telejornais traziam. Como um ritual a ser seguido religiosamente, a tragédia era repetida insistentemente como um disco velho emperrado na vitrola.

Neste último domingo, dia das mães, recebemos em nossos lares a visita da mãe mais esperada desde o último 29 de março. Ana Carolina de Oliveira, mãe de Isabella, foi ouvida por ouvidos atentos e vista por olhos mareados. Numa entrevista chocante, vimos o sofrimento de uma mãe que não pôde esquecer, por um segundo que fosse, a tragédia que levou a morte de sua única filha de apenas cinco anos.

O efeito do dia seguinte não poderia ter sido melhor. A entrevista transcorreu com o sucesso esperado (e insistido). Os comentários nas casas, ruas e instituições sempre convergiam para o mesmo assunto, a entrevista EXCLUSIVA do Fantástico. A jornalista Patrícia Poeta, atual apresentadora do programa, desempenhou o papel de porta-voz mais fiel do interesse do público, que a essa altura, já esperava com o lenço em mãos ao primeiro sinal de emoção de Ana Carolina.

O público não segurava seus lenços por simples imaginação que eles lhes seriam úteis. Mas por que sabiam, pelo histórico jornalístico dos últimos tempos, que a entrevista seria levada, com única e exclusiva intenção, a fazer correr lágrimas nas fases do telespectador. Naturalmente não seria de se esperar outra reação, além de lágrimas, de uma mãe que há um mês perdeu sua filha brutalmente. Mas, numa completa falta de respeito a sua dor, Ana Carolina não teve outra opção: ou daria a entrevista, ou seria marcada como uma mulher fria e calculista, numa imagem construída por uma mídia cada vez mais despreocupada com fatos reais, com pessoas reais.

Obrigada a aceitar a insistente entrevista, Ana Carolina foi mais uma personagem no espetáculo dirigido pela Rede Globo. A manifestação pública de sentimentos tornou-se regra nas empresas de comunicação em detrimento de fatos e de opinião pública. Esse deslocamento de posição, não passa de mais uma estratégia política para garantir a docilidade do público cada vez mais isento das decisões de INTERESSE público e cada vez mais sentimental.

Maktube


“É... Na verdade eu me sinto um tanto envergonhada... Pois é! É exatamente por isso que você está pensando. A mais de um mês que eu não “passo” por aqui. Por tanto, devo minhas mais sinceras desculpas a quem ainda não desistiu (e a quem já desistiu, apesar de saber que eles não verão essas desculpas...) de dá uma olhadinha, de vez em quando, neste Blog.”


Digo logo! Custa-me acreditar em “instinto materno”. Talvez, as mulheres que DECIDEM ser mães adquiram esse potencial verdadeiramente admirável, mas, categorizar como algo tatuado em sua “natureza” realmente me custa acreditar. Mas pondo isso de lado, e mesmo sem encontrar ainda uma explicação, esse mês de maio, “mês das mães” (*.*), faz de mim uma MULHER bastante reflexiva.

Pensando bem, a explicação para esse momento de “devaneio” pode está aí, ser mulher. O que é uma pena, afinal, seria tão mais interessante ver homens participando mais do complexo bojo de decisões que é a vida daquela: ser simplesmente mulher, ou se transfigurar em esposas, nas noites quentes; em trabalhadoras, nos dias ensolarados; e em mães, nas madrugadas insones.

Inflexíveis, os papéis desempenhados pelas mulheres desencadeiam seqüências de alarmantes dificuldades no que se refere, principalmente, ao processo histórico de sua emancipação. Com a falta de compartilhamento que os homens e a sociedade tem na maioria das funções consideradas eminentemente femininas, como as responsabilidades com a família, a sobrecarga suportada por elas torna-se preocupante, mas ainda a poucos olhos.

A turva percepção da situação social da mulher revela um contexto recheado de preconceitos e uma divisão social de tarefas baseada no gênero. A baixa oportunidade e autonomia econômica, além de uma irrisória participação no processo de tomada de decisão e seu limitado acesso ao poder, fazem o número de mulheres pobres aumentar consideravelmente em relação aos homens.

Um agravante dessa situação é o inaceitável número de adolescentes grávidas. A maternidade precoce não só limita a melhoria da condição educativa da mulher, como agride a situação de vida daqueles que apenas começam a sentir seu gosto, as crianças. A desnutrição materna e a falta de acompanhamento médico, pré-natal, resultam em sérios problemas de saúde aos filhos. Não é sem motivo que a mortalidade é maior nos filhos de mães jovens, que em sua maioria também são pobres.

Recorrer ao aborto para escapar e não permitir que suas crianças vivam na extrema miséria é a mais desesperada atitude de uma mulher grávida em situação de calamidade. Os abortos clandestinos são praticados na sua imensa maioria por jovens, pobres e negras. Essa atividade ilegal representa um dos maiores problemas de saúde PÚBLICA que muitos países, incluindo o Brasil, convivem a cada dia sem que seja dada sua devida atenção. A clandestinidade do aborto causa seqüelas permanentes como a infertilidade e representa um dos maiores índices de mortalidade materna.

Por não encarar os DIREITOS sexuais como mais um dever a ser gerido pelo Estado - sendo entendido como direito constitucional à saúde -, muitas mulheres carregam a culpa e são punidas por recorrer à clandestinidade por falta de assistência. A imposição que a mulher sofre para manter uma gravidez indesejada, não apenas agride seu direito à saúde como também seu direito à liberdade.

Reconhecer a competência da mulher em decidir sobre sua sexualidade e maternidade é um respeito aos direitos humanos. Essa falta de respeito denuncia ainda o grau de desigualdade com que é tratado homens e mulheres na responsabilidade da concepção. A criminalização do aborto exclui os homens dessa responsabilidade e condena a mulher como a única “culpada” pela gravidez. Não se considera também a absurda imposição sexual masculina na hora de negociar o ato sexual como uma resultante da gravidez indesejada.

A moralidade social caduca, sobretudo a religiosa, permanece cega e irredutível sobre os fatos. Fatos esses que mostram mulheres condenadas a uma vida não planejada e crianças morrendo desnutridas ou de doenças que poderiam ser evitadas. A igreja condena o uso de contraceptivos e condena o aborto. Um ato de completa ignorância e descompasso com a realidade.

A existência não é dada. Ela se faz, se constrói. A vida é uma projeção para o ser, que por sua vez só o é, com atos. Sem isso ela não é nada, é só, talvez, uma vida em potencial. Legalizar o aborto é um ato de justiça social. É a preservação da vida em plenitude, da vida que acontece. Da vida de quem deve ter o direito de escolher ser mãe, numa atitude livre e responsável. Obrigar uma mulher a ser mãe é um ato conservador que encara a maternidade como um dever e não como uma forma de amor.